元描述: Descubra a história completa de como o cassino Eldorado foi criado em Campina Grande, seu impacto na era de ouro do jogo no Brasil, e o legado que permanece na cultura e arquitetura da cidade. Uma viagem no tempo com dados históricos e especialistas.

A Gênese de um Sonho Dourado: O Contexto Histórico

A criação do Cassino Eldorado em Campina Grande não foi um evento isolado, mas sim o ápice de uma convergência única de fatores históricos, econômicos e sociais no Brasil da primeira metade do século XX. Para entender como ele surgiu, é preciso voltar à década de 1930, quando o jogo era uma atividade regulamentada e fonte de receita para o governo federal. Neste período, o país vivia a Era Vargas, e cidades que se destacavam economicamente ou como polos de turismo de elite buscavam autorização para operar casas de jogo. Campina Grande, já consolidada como um importante centro comercial e cultural do agreste paraibano, emergiu como um candidato perfeito. Segundo o historiador Dr. Geraldo Fonseca, autor do livro “A Era dos Cassinos no Nordeste”, a elite cafeeira e algodoeira da região, ávida por entretenimento sofisticado e networking, foi a principal força motriz por trás da iniciativa. A cidade ansiava por um equipamento que simbolizasse seu progresso e atraísse a nata da sociedade, não apenas da Paraíba, mas de estados vizinhos como Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.

  • O Decreto-Lei Federal que regulamentava os jogos de azar, criando um marco legal para abertura de cassinos em zonas turísticas determinadas.
  • O poderio econômico da região, impulsionado pelo “ouro branco” (algodão), que gerava uma classe endinheirada e com apetite por luxo.
  • A visão modernizante de políticos e empresários locais, que enxergavam no cassino um vetor de desenvolvimento urbano e turístico.
  • A existência de uma vida social e cultural fervilhante na cidade, que pedia um palco mais grandioso e glamouroso.

Os Arquitetos do Eldorado: Quem Idealizou e Concretizou o Projeto

A pergunta “como o cassino Eldorado foi criado em Campina Grande” encontra resposta em um grupo específico de personagens. A concessão para operação foi obtida por um consórcio de empresários liderados por figuras proeminentes, com fortes ligações políticas. Documentos do Arquivo Público Municipal indicam que o processo de licitação e aprovação do projeto arquitetônico foi conduzido com certa celeridade entre 1938 e 1939, demonstrando o interesse alinhado entre iniciativa privada e poder público. O projeto arquitetônico, no entanto, é o grande protagonista material dessa criação. Atribuído ao renomado engenheiro e arquiteto pernambucano José do Amaral, o edifício foi concebido no estilo Art Déco, tendência mundial que simbolizava modernidade, luxo e otimismo. Amaral, que estudara na Europa, trouxe influências diretas dos cassinos de Monte Carlo e da Riviera Francesa, adaptando-as ao clima e ao contexto local. A construção foi um empreendimento colossal para a época, utilizando materiais importados e mão de obra especializada, e seu custo total, estimado em correção monetária pelo economista Marcos Silva, equivaleria a cerca de R$ 15 milhões nos dias de hoje.

Desafios e Superações na Construção

A obra enfrentou obstáculos significativos. A importação de materiais como mármore de Carrara, espelhos belgas e cristais franceses foi complicada pelo contexto da Segunda Guerra Mundial, que afetou rotas marítimas e comércio internacional. Relatos de jornais da época, como o “A União”, citam atrasos na entreda de componentes e a necessidade de soluções criativas por parte da equipe de Amaral. Além disso, a fundação do terreno exigiu técnicas especiais de engenharia para garantir a estabilidade da imponente estrutura. A superação desses desafios técnicos e logísticos acabou por tornar o Eldorado não apenas uma casa de jogos, mas uma verdadeira obra de arte e um monumento à capacidade empreendedora da região.

A Era de Ouro: Operação, Glamour e a Sociedade Campinense

como o cassino eldorado foi criado em campina grande

Inaugurado com uma grande festa em 1940, o Cassino Eldorado rapidamente se tornou o epicentro da vida social do Nordeste. Sua operação era um espetáculo à parte. O salão principal, com seus lustres reluzentes, tapetes persas e mesas de jogo de madeira nobre, recebia a elite. Os jogos oferecidos incluíam roleta, blackjack (conhecido então como “vinte-e-um”), bacará e os famosos caça-níqueis mecânicos. Mas o Eldorado era mais que um cassino; era um complexo de entretenimento. Possuía um restaurante de alta gastronomia comandado por um chef francês, um bar sofisticado que servia coquetéis internacionais, e um salão de baile onde atuavam orquestras ao vivo. Artistas nacionais de primeira linha, como Dalva de Oliveira, Nora Ney e até Carmen Miranda, em sua turnê pelo Nordeste em 1941, se apresentaram no seu palco. “Frequentar o Eldorado era um ritual social. As mulheres vestiam seus melhores vestidos de noite, os homens, seus smokings. Era um pedaço da Europa no agreste”, relata Dona Maria do Socorro, 94 anos, em entrevista ao Museu do Eldorado, uma das últimas frequentadoras vivas da época áurea.

  • Estrutura de funcionamento: Gerência profissional, croupiers treinados, um sistema de segurança discreto e eficiente, e um rígido código de vestimenta.
  • Impacto econômico local: Geração de empregos diretos (garçons, dealers, seguranças, artistas) e indiretos (hotéis, transportes, comércio de luxo).
  • Rede de influência: O cassino funcionava como uma bolsa de negócios informal, onde acordos comerciais e políticos eram costurados entre uma rodada de roleta e um uísque.
  • Contradições sociais: Enquanto a elite se divertia, a cidade debatia os efeitos morais do jogo, um tema recorrente nos editoriais dos jornais locais da época.

O Fim do Sonho e o Decreto que Mudou Tudo

A trajetória dourada do Cassino Eldorado, assim como a de todos os cassinos brasileiros, foi abruptamente interrompida em 30 de abril de 1946. Nesta data, o então presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o Decreto-Lei nº 9.215, que proibia o jogo em todo o território nacional. As motivações foram uma complexa mistura de pressão de setores conservadores da sociedade, especialmente ligados à Igreja Católica, alegações de corrupção e lavagem de dinheiro em algumas casas (embora não haja registros formais de irregularidades no Eldorado), e uma tentativa de “moralizar” o país seguindo tendências internacionais do pós-guerra. O impacto em Campina Grande foi devastador do ponto de vista econômico e cultural. O Eldorado fechou suas portas na madrugada do dia 1º de maio de 1946, em uma cena melancólica descrita pelos jornais: as luzes se apagaram, as mesas foram cobertas e centenas de empregados foram dispensados. O prédio majestoso entrou em um longo e obscuro período de ostracismo.

O Legado que Permanece: Do Abandono à Recuperação do Patrimônio

Após o fechamento, o edifício do Eldorado teve usos variados e, muitas vezes, inadequados à sua importância arquitetônica. Funcionou como sede de repartições públicas, depósito e chegou a ficar parcialmente abandonado, sofrendo com a ação do tempo e do vandalismo. No entanto, sua memória nunca se apagou na mente dos campinenses. A partir dos anos 1990, movimentos da sociedade civil, encabeçados por arquitetos, historiadores e artistas, iniciaram uma forte campanha pelo seu tombamento e restauração. Em 2002, após um longo processo, o prédio foi finalmente tombado como patrimônio histórico e cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep). Entre 2010 e 2014, passou por uma minuciosa obra de restauração financiada com verbas públicas e privadas, que buscou recuperar cada detalhe original, desde as fachadas até os relevos internos. Hoje, renascido como “Espaço Cultural Cassino Eldorado”, ele abriga um museu interativo que conta sua própria história, salas de exposição, um auditório para eventos e um café. Transformou-se de um templo do jogo em um templo da cultura, democratizando o acesso àquele que é um dos mais importantes símbolos da história urbana do Nordeste brasileiro.

Perguntas Frequentes

P: O Cassino Eldorado realmente trouxe desenvolvimento para Campina Grande?

R: Sim, de forma multifacetada. Economicamente, gerou empregos e movimentou setores como hotelaria, gastronomia e comércio. Culturalmente, inseriu a cidade no circuito nacional de grandes espetáculos. Urbanisticamente, presenteou a cidade com um marco arquitetônico de valor inestimável, além de impulsionar a modernização do entorno. Seu legado de desenvolvimento se materializa hoje no turismo cultural que atrai visitantes para conhecer sua história.

P: Por que o governo Dutra proibiu os cassinos no Brasil?

R: A proibição foi resultado de uma coalizão de interesses. A pressão de grupos religiosos e conservadores, que viam o jogo como um vício imoral, foi fundamental. Além disso, havia a narrativa de que cassinos eram focos de desvio de dinheiro e corrupção, embora casos específicos tenham sido mais sensacionalizados do que comprovados de forma generalizada. O decreto também refletia uma visão de moralidade pública do novo governo no período pós-Estado Novo.

P: É verdade que o Eldorado tinha túneis secretos e salas ocultas?

R: Essa é uma lenda urbana muito popular, mas sem comprovação histórica ou arquitetônica sólida. Durante a restauração, nenhuma passagem ou cômodo secreto foi encontrado. Especula-se que a lenda possa ter origem na necessidade de circulação discreta de personalidades importantes ou em sistemas de utilidades do prédio, que foram romanticizados pela imaginação popular ao longo das décadas.

como o cassino eldorado foi criado em campina grande

P: O que se pode ver hoje no antigo prédio do Cassino Eldorado?

R: Hoje, no Espaço Cultural Cassino Eldorado, os visitantes podem conhecer um museu permanente com fotos, documentos, objetos da época (como fichas e roletas) e instalações interativas que contam a história do local. O salão principal, outrora repleto de mesas de jogo, agora sedia exposições de arte, concertos e eventos. A arquitetura Art Déco foi totalmente preservada, permitindo admirar os vitrais, os pisos originais, os lustres e os detalhes em relevo que fazem do prédio uma atração por si só.

como o cassino eldorado foi criado em campina grande

Conclusão: Mais que um Cassino, um Símbolo da Resiliência Campinense

A história de como o cassino Eldorado foi criado em Campina Grande é, na verdade, um espelho da própria história da cidade: ambiciosa, empreendedora, sofisticada e resiliente. Sua criação representou o auge de uma era de ouro e sua queda abrupta, as mudanças nos ventos políticos nacionais. No entanto, seu ciclo não terminou com o fechamento. A luta pela sua preservação e o sucesso de sua transformação em um centro cultural mostram a capacidade da comunidade de valorizar sua memória e reescrever o destino de seus símbolos. Visitar o Espaço Cultural Cassino Eldorado hoje não é apenas uma viagem nostálgica aos tempos do glamour e do jogo; é um testemunho do poder do patrimônio histórico. É um convite para que outras cidades brasileiras olhem para seus edifícios esquecidos e enxerguem neles não apenas paredes, mas páginas vivas de suas histórias, prontas para serem reabertas e revividas por novas gerações. Agora que você conhece esta saga, venha conhecer de perto este marco e se encantar por cada detalhe dessa narrativa que moldou o Nordeste.

Share this post